Mais de duas décadas após o Brasil revolucionar o mercado automotivo com o lançamento dos veículos flex, a Índia acaba de dar um passo semelhante. A Maruti Suzuki apresentou oficialmente o Wagon R Flex Fuel, primeiro carro de produção em série do país asiático preparado para operar com diferentes proporções de etanol e gasolina.
O lançamento marca uma nova etapa na estratégia indiana para reduzir a dependência de combustíveis fósseis importados e ampliar o uso de fontes renováveis na matriz energética nacional. Atualmente, cerca de 87% do petróleo consumido pela Índia vem de importações, cenário que aumenta a preocupação do governo diante das oscilações do mercado internacional.
A inspiração para a iniciativa veio justamente do Brasil, referência mundial na utilização do etanol como combustível automotivo. O primeiro carro flex brasileiro, o Volkswagen Gol Total Flex, chegou ao mercado em 2003 e transformou a forma como os consumidores abastecem seus veículos.
Tecnologia adaptada ao etanol
O novo Wagon R Flex Fuel mantém o conhecido motor K12N de 1,2 litro, mas recebeu uma série de adaptações para suportar diferentes concentrações de etanol. Entre as modificações estão novos bicos injetores, bomba de combustível reforçada, componentes resistentes à corrosão e uma central eletrônica recalibrada.
O modelo foi homologado para operar com misturas que vão desde a gasolina E20, já comum na Índia, até o E85. Segundo a fabricante, o veículo também é capaz de trabalhar com etanol puro graças ao monitoramento constante da composição do combustível por meio de sensores específicos.
Apesar do lançamento, a Maruti Suzuki ainda não divulgou dados oficiais de potência, desempenho ou consumo da nova versão.
Estratégia para reduzir a dependência do petróleo
A adoção dos veículos flex faz parte de um plano mais amplo do governo indiano para ampliar a produção de biocombustíveis a partir de matérias-primas locais, como cana-de-açúcar e milho.
Além dos benefícios ambientais, a estratégia busca reduzir gastos com importação de combustíveis e fortalecer a economia interna. A medida ocorre paralelamente aos investimentos do país em eletrificação, que seguem como uma das prioridades para os próximos anos.
O governo indiano trabalha com a meta de que, até 2030, 30% dos automóveis de passeio e 80% dos veículos de duas e três rodas vendidos no país sejam elétricos.
Desafio será ampliar a rede de abastecimento
Se a tecnologia já está pronta, a infraestrutura ainda representa um desafio. Atualmente, postos com oferta de E85 são raros na Índia, enquanto a gasolina com 20% de etanol já está amplamente distribuída.
Para acelerar a adoção do novo combustível, o governo anunciou um plano de expansão da rede de abastecimento. A proposta prevê a criação de corredores estratégicos ligando grandes centros urbanos como Déli, Mumbai e Pune.
A expectativa é encerrar este ano com cerca de 500 postos oferecendo E85. Até o fim de 2027, o objetivo é ultrapassar 5 mil pontos de abastecimento em diferentes regiões do país.
Com a chegada do Wagon R Flex Fuel, a Índia se torna o segundo país do mundo a apostar em larga escala na tecnologia flex, reforçando o protagonismo que o Brasil construiu ao longo das últimas duas décadas no desenvolvimento e utilização de veículos movidos a etanol.