A história da indústria automotiva brasileira guarda episódios que hoje parecem difíceis de acreditar. Um deles aconteceu em abril de 1990, quando concessionárias passaram a oferecer carros, motos e até viagens internacionais como brindes para tentar atrair clientes em meio à crise econômica causada pelo Plano Collor.
Na época, o então presidente Fernando Collor de Mello colocou em prática o chamado Plano Brasil Novo, medida criada para conter a hiperinflação que atingia o país. O plano bloqueou grande parte dos recursos depositados nas contas bancárias dos brasileiros, permitindo a movimentação de apenas uma pequena parcela do dinheiro.
Com consumidores sem acesso ao próprio dinheiro, diversos setores da economia praticamente pararam. O mercado automotivo foi um dos mais afetados, e muitas concessionárias passaram dias sem realizar uma única venda.
Inicialmente, as lojas apostaram em grandes descontos, que chegavam a 25% sobre o valor dos veículos. Como a estratégia não trouxe o resultado esperado, algumas revendas decidiram criar promoções consideradas inéditas para a época.
Entre as ofertas anunciadas estavam viagens internacionais para compradores de modelos específicos. Em uma concessionária Chevrolet, por exemplo, quem adquirisse determinados veículos ganhava viagens ao Paraguai, Nova York ou até Paris.
Pouco tempo depois surgiram promoções ainda mais ousadas. Algumas concessionárias passaram a oferecer outro veículo como brinde na compra de um modelo novo.
Em uma revenda Ford, clientes que compravam um caminhão Cargo levavam gratuitamente uma picape Pampa. Já quem adquiria um Escort XR3 Conversível recebia uma motocicleta Honda 250, enquanto compradores do Del Rey Ghia ganhavam uma Honda 125.
A estratégia também foi adotada por outras marcas. Em uma concessionária Volkswagen, a compra de determinados caminhões garantia um Gol GTS sem custo adicional. Já em lojas especializadas em motocicletas, clientes que adquiriam modelos de maior valor recebiam outra moto ou até uma picape como bonificação.
Apesar do impacto das campanhas publicitárias, as promoções duraram pouco. No início de maio de 1990, o governo começou a flexibilizar algumas operações financeiras e liberou mecanismos como a utilização de consórcios contemplados para aquisição de veículos.
Ao mesmo tempo, muitos consumidores passaram a enxergar os automóveis como uma forma de preservar patrimônio diante das incertezas econômicas, contribuindo para a retomada gradual das vendas.
Mais de três décadas depois, as campanhas do tipo "compre um carro e leve outro" continuam sendo lembradas como um dos episódios mais inusitados da história do mercado automotivo brasileiro, reflexo de um período marcado por hiperinflação, instabilidade econômica e medidas extremas para conter a crise.